Entrevista com o matemático Nassim Taleb
Demolidor de certezas
O matemático Nassim Taleb considera um mito a eficácia dos atuais modelos para monitorar ativos financeiros. – Por Luís Eduardo Leal – Revista Estadão Investimentos
Fórmulas para acompanhar os mercados, inclusive as consagradas e premiadas com o Nobel de Economia, são inapropriadas para o investidor, por não capturarem eventos extremos e inesperados, sustenta Nassim Tabeb, professor de Ciências da Incerteza na Universidade de Massachusetts em Amherst (EUA) e ex-executivo do Union Bank of Switzerland e do CS-Fisrt Boston. O mercado financeiro, diz ele, não é condicionado por um padrão médio de ocorrências – mas, sim, pelo que é radical e imprevisível.
Tabeb fala sobre risco e explica por que as incertezas desempenham papel maior do que lhes é atribuído no dia-a-dia do mercado.
Qual é a sua definição de risco?
Taleb – Qualquer que seja o risco, não se pode condensá-lo num número. Toda vez que se tenta espremer algo em um número estaremos simplificando. Nossa certeza não pode ser singularizada numa medida simples, é impossível produzir certeza a partir de incerteza. Para lidar com risco não se pode ter uma definição muito clara – preciso ter a mente aberta. Há o risco moral, humano, riscos que estamos enfrentando e que são muito consideráveis. Tudo isso não parece fazer parte da consciência científica. Quando se joga, nos preocupamos com o que acontece dentro do jogo.
É preciso se preocupar com que as regras não sejam injustas. A maior parte dos cientistas não entende isso. Então temos um grave problema em finanças, o de que os riscos descritos pelos acadêmicos não têm nenhuma relação com a vida real – e os acadêmicos não querem aprender como quem pratica. É por isso que recomendo que se evitem as aulas de finanças e as escolas e administração. O que se ensina nessas escolas, seja lá o que for, não risco.
Então, o que é ensinado nas escolas de administração ?
Taleb – Eles ensinam teorias de carteiras, um lixo científico. Não leva em conta eventos raros e utiliza modelos errados, derivados de Gauss. Modelos inadequados para medir risco, que não capturam caudas gordas e desvios e perda. Eu penso que ser professor de finanças é uma ocupação muito desonesta, especialmente nos Estados Unidos.
O senhor é conhecido por atacar os formuladores de modelos matemáticos sados para avaliar as tendências de evolução de ativos financeiros, especialmente aqueles desenvolvidos por Markowitz, Merton, Black e Scholes. O senhor considera esses modelos inteiramente sem valor ?
Tabeb – Sim! Black e Scholes não foi desenvolvido por Black, Scholes e Merton, mas por Barchelier e Thorp. O que Merton fez? Ajudou a empacotar o modelo para vendê-lo a escolas de administração, ao establishment financeiro acadêmico, tornando-o compatível com a teoria econômica. Este é o maior erro que temos. A equação que usamos não é de Black e Scholes. Antes de tudo, eles a modificaram e a ferramenta não é deles.

A proposição de Markowitz é muito perigosa porque te leva a construir carteiras ótimas, e elas não são ótimas. É muito perigoso olhar o mundo a partir do modelo de Markowitz. No Extremistão, tudo é dominado por eventos raros. Dado que eventos raros dominam tudo, é preciso e preocupar com desvios de perda. E Markowitz se preocupa apenas com o que é comum. Dar uma ferramenta que não funciona é a mesma coisa que voar em um avião dependendo apenas do altímetro. É melhor não ter nada do que um altímetro defeituoso. Não se trata de continuar usando as mesmas ferramentas enquanto se espera por instrumentos melhores. Nenhum remédio freqüentemente é melhor do que remédio errado.
O que estou dizendo não é novo. Sabemos desde os anos 80 que esses modelos estão errados, que Markowitz está errado. Em 1987 sofremos um trauma com um desvio de perda, e deram o Nobel de Economia a Markowitz e Sharpe. Este é o grande problema em finanças: essas pessoas recebem o Nobel, seus modelos começam a ser ensinados em programas de MBA e se torna impossível desfazer os erros.
Saiba mais:
O Profeta do Caos
http://veja.abril.com.br/220502/p_120.html
Perfil geral do Libanês mega investidor:
http://en.wikipedia.org/wiki/Nassim_Taleb
