Esquema em Pirâmide e o pensamento irracional

Ao se discutir sobre investimentos, fundos, enfim tudo que possa gerar um excedente monetário, devemos sempre estar atentos como certas armadilhas cognitivas podem colaborar para a bancarrota da sua conta no banco. Uma dessas armadilhas é o desconto irracional do futuro, um dos casos extremos de como a subavaliação de atos do presente podem afetar o drasticamente o futuro são as pirâmides, os esquemas de Ponzi e as correntes da felicidade.
O criador dessa “estratégia” foi Charles Ponzi, nascido como Carlo Ponzi em Parma, Italia, em 1882. Emigrou para os EUA em 1903 e desde o início teve problemas com a justiça falsificando cheques e cometendo outros pequenos crimes tanto nos EUA quanto no Canadá onde viveu. Em 1918, em Boston, casou com uma outra emigrante italiana e no ano seguinte desenvolveu seu mais famoso esquema de fraude, utilizado até hoje: o esquema em pirâmide.
Durante alguns meses, enquanto durou a fraude, foi uma das pessoas mais admiradas da cidade e um dos pilares da comunidade. Mudou para uma mansão e participava de obras de assistência (nenhuma semelhança é pura coincidência). Foi para prisão várias vezes no Canadá e nos EUA. Em 1934, quando cumpriu sua última pena foi deportado de volta pra Itália onde tentou novos esquemas, mas sem sucesso. Finalmente mudou para o Brasil onde trabalhou como representante das linhas aéreas italianas até que estas foram fechadas por causa da guerra. Morreu em janeiro de 1949 num hospital para indigentes no Rio de Janeiro.
Há vários esquemas de pirâmide, cada uma dessas variantes difere nos detalhes e no colorido das histórias. Qualquer que seja a sua aparência externa, contudo, quase todas as arapucas envolvem o levantamento de dinheiro de um grupo inicial de “investidores”, prometendo-lhes retornos rápidos e extraordinários. Os retornos decorrentes das contribuições em dinheiro de um grupo maior. Um terceiro grupo ainda mais amplo contribui para os retornos dos dois primeiros grupos anteriores.
Esse processo em expansão perdura por algum tempo, mas os número de pessoas necessárias para manter a pirâmide em crescimento e sustentar o ingresso de dinheiro aumenta exponencialmente, logo tornando-se de manutenção inviável. As pessoas desistem, e o dinheiro fácil não demora a tornar-se mais escasso. Os participantes geralmente não têm idéia de quantos novos recrutas são necessários para manter o esquema. Se cada membro do grupo inicial de 10 pessoas alicia outras 10, por exemplo, o segundo grupo já é de 100 participantes. Se cada um desses 100 atrai mais 10, o terceiro grupo chega a 1000 pessoas. Os grupos seguintes são de 10.000, 100.000 e assim vai, o sistema sucumbe sob o seu próprio peso quando não é mais possível encontrar pessoas em quantidade suficiente. Entretanto, quando se entra no esquema cedo, é possível auferir retornos extraordinariamente rápidos (ou seria possível, se tais esquemas não fossem ilegais, ou pelo menos deveriam ser aqui no Brasil).

A lógica dos esquemas de pirâmide é clara, mas os participantes geralmente se preocupam apenas com o que acontece com um ou dois grupos adiante e esperam conseguir sair antes do colapso. Não é irracional envolver-se neles, quando se está seguro de cooptar alguém ainda mais otário para entrar em seu lugar.
Há quem diga que o aumento meteórico nos preços das ações das pontocom em fins da década de 1990, e depois sua queda abrupta em 2000 e 2001, foram versões atenuadas da mesma fraude. Compre na oferta pública inicial, mantenha as ações enquanto subirem como foguetes e caia fora antes que despenquem.
Talvez nosso genes sejam culpados. (Afinal, eles sempre levam a pancada.) A seleção natural provavelmente favorece os organismos que reagem aos eventos locais e imediatos e ignoram os distantes ou futuros, que são descontados mais ou menos da mesma maneira como se faz com o dinheiro no futuro. Até a devastação ambiental pode ser encarada como uma espécie de esquema de Ponzi global: os primeiros “investidores” se dão bem; os menos ágeis, não tão bem – até que uma catástrofe atinge os retardatários.
