Físicos e a Alquimia dos Mercados

março 16, 2009 | por Fernando Botti |

gaussUm belo material do The New York Times, publicado na Folha, sobre o papel dos físicos na avaliação de riscos do mercado financeiro que recebi por e-mail de um amigo físico.

Escrito por Dennis Overbye, o artigo “A alquimia dos mercados” tenta elucidar o limite de funcionamento das estratégias quantitativas, até que ponto a crença na métrica de risco foi responsável pela crise ?

Emanuel Derman esperava sentir uma certa fossa quando deixou a física de partículas por um emprego em Wall Street em 1985. Afinal, por quase 20 anos, como estudante na Universidade Columbia em Nova York e bolsista de doutorado em instituições como Oxford e a Universidade do Colorado, ele havia convi-vido com prêmios Nobel. Como administrar dinheiro poderia se comparar com isso?

Mas a fossa não aconteceu. Pelo contrário, ele se apaixonou por uma área das finanças que lida com opções de ações.

“A teoria das opções tem uma certa profundidade. Era muito elegante; tinha a qualidade da física”, explicou recentemente Derman com um pouco de melancolia, sentado em seu escritório em Columbia, onde hoje é professor de finanças e consultor de gestão de riscos na Prisma Capital Partners.

Derman, que passou 17 anos na Goldman Sachs e chegou a diretor-gerente, foi precursor de muitos físicos e outros cientistas que inundaram Wall Street. Eles são conhecidos como “quants”, porque fazem finanças quantitativas. Usam técnicas com as quais esperavam solucionar os mistérios do universo para ganhar dinheiro.

Essa enxurrada parece continuar, apesar do colapso econômico mundial. Alguns quants analisam o mercado de ações. Outros produzem os modelos de computador que analisam os riscos e lucros quase incomensuráveis de negócios complexos ou dirigem seus próprios fundos hedge e percorrem vastos universos de dados em busca de disparidades mínimas que possam lhes dar uma vantagem.

Mas mesmo os quants tendem a concordar que o que fazem não é exatamente ciência.

Como diz Derman em seu livro “My Life as a Quant: Reflections on Physics and Finance” [Minha vida como um quant: Reflexões sobre física e finanças], “na física poderá haver um dia uma Teoria do Tudo; nas finanças e nas ciências sociais, você terá sorte se houver uma teoria útil de qualquer coisa”.

Os físicos começaram a deixar a academia atrás dos empregos em Wall Street no final dos anos 1970. Chegaram no meio de uma revolução financeira. Entre outras coisas, o aumento da inflação havia tornado as finanças mais complexas e arriscadas, e era necessário ter uma perícia matemática cada vez mais sofisticada para entender até investimentos simples como títulos. Chegam os quants.

Mas foi nas opções de ações que essa revolução teve seu maior e mais famoso sucesso. Na década de 1970 o já morto Fischer Black, do Goldman Sachs, Myron S. Scholes, da Universidade Stanford, e Robert C. Merton, de Harvard, haviam descoberto como avaliar e proteger essas opções de uma maneira que parecia garantir os lucros. O chamado modelo Black-Scholes foi o padrão de ouro dos quants desde então.

Merton e Scholes ganharam o prêmio Nobel de ciência econômica em 1997 pelo modelo de opções de ações. Apenas um ano depois, o Long Term Capital Management, fundo hedge altamente vantajoso cuja diretoria incluía os dois laureados pelo Nobel, desmoronou e teve de ser socorrido em US$ 3,65 bilhões por um grupo de bancos.

Depois, um memorando do banco Merrill Lynch notou que os modelos financeiros “podem dar uma sensação de segurança maior do que se garante; portanto, a confiança nesses modelos deve ser limitada”.

Foi uma lição que aparentemente ninguém aprendeu.

Diante da situação mundial atual, é justo perguntar se os quants têm alguma ideia do que estão fazendo.

Lee Smolin, físico do Instituto Perimeter de Física Teórica em Waterloo, Ontário (Canadá), disse: “O que me surpreende ao saber disso é como são tênues as bases teóricas das alegações de que os derivativos e outros instrumentos financeiros complexos reduziriam os riscos, quando na verdade sua utilização trouxe instabilidades”. Um dos críticos mais veementes é Nassim Nicholas Taleb, ex-corretor e hoje professor na Universidade de Nova York.

Ele teve uma recepção adulatória no recente Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça). Em seu livro campeão de vendas “The Black Swan” [O cisne negro], Taleb afirma que as finanças e a história são dominadas por eventos raros e imprevisíveis.

“Qualquer corretor lhe dirá que todo gerente de risco é uma fraude”, ele disse, e os corretores de opções costumavam se dar bem antes de Black-Scholes.

“Acho que os físicos deveriam voltar para o departamento de física e deixar Wall Street em paz”, ele disse. Segundo Derman, os modelos podem ser uma orientação útil desde que você não os confunda com ciência real. Mas algumas pessoas levam os modelos demasiadamente a sério? “Não as pessoas inteligentes”, disse Derman.

O que mais você precisa saber:

  1. 5 Comentários sobre “Físicos e a Alquimia dos Mercados”


  2. Por Fábio em mar 17, 2009 | Resposta

    Ótimo artigo. Então é possível, Botti, que sistemas sofisticados “black box” que parecem infalíveis hoje, tenham grandes drawdowns inesperados no futuro? Abraço.


  3. Por Fernando Botti em mar 18, 2009 | Resposta

    http://www.atrattore.com

    Olá Fábio,
    Sim, mas é preciso ter um olhar atento nesse assunto, não é por causa de uma ou outra falha que toda pesquisa nessa área mereça o descrédito.

    Abraços,
    Botti


  4. Por Emerson Rodrigues em mar 19, 2009 | Resposta

    Emanuel Derman, Taleb, Lee Smolin…gigantes dessas áreas que ninguém escutou…até agora !

    Belo texto.


  5. Por Daniel Ferrante em mar 26, 2009 | Resposta

    http://arsphysica.wordpress.com/

    Caro Fernando,

    Eu gostaria de trazer a sua atenção esse post publicado no blog Ars Physica,

    • “Esperteza no Mercado Financeiro”, http://arsphysica.wordpress.com/2009/03/10/esperteza-no-mercado-financeiro/ ,

    que lida com o mesmo assunto sendo tratado aqui, porém não com base na Folha, mas sim no original. Mais ainda, eu sugiro fortemente que os comentários também sejam acompanhados, uma vez que eles contextualizam melhor o conteúdo do post.

    Resumidamente, o fato é que os tais “modelos” mencionados pelo NYT (e pelo “60 Minutes” antes de todos) não passam duma invenção macabra pra justificar práticas selvagens.

    Hedge Funds que *realmente* se valem de modelos sólidos e robustos, como D.E. Shaw e Renaissance Tech, mesmo nesses tempos de crise, *ainda* estão contratando — além de não terem perdido dinheiro.

    Então, infelizmente, até o NYT caiu nessa conversa de carochinha que, de verdade, foi iniciada pelo “60 Minutes”, como vc pode ver seguindo os links presentes no post supracitado. Isso não passa duma tola busca por um “bode expiatório”, como sempre acontece e certamente iria (e ainda vai) acontecer no caso em questão.

    Como todos sabemos, modelos existem e funcionam… o problema é quando as pessoas tentam burlar e contornar todo e qualquer tipo de regra do jogo… e foi *exatamente isso* que aconteceu no caso em questão. Portanto, culpar os modelos é um /non sequitur/ sem tamanho e absolutamente patético.

    Agora, o próprio Smolin reconhece no “abstract” do artigo abaixo que o tratamento é “não rigoroso” — portanto, é preciso mais parcimônia antes de sair por aí coroando vacas sagradas.

    • “Time and symmetry in models of economic markets”, http://arxiv.org/abs/0902.4274 .

    [].


  6. Por Marco em fev 9, 2010 | Resposta

    http://www.jovemmilionario.com.br

    A lição do LTCM nos mostra o quanto é imprevisível o mercado, mesmo para os maiores “gênios”do mundo.
    Abs

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