Invista no Câmbio

Alucinações

novembro 11, 2008 | por Fernando Botti |


Gregor Zawada não tinha uma régua de cálculo, não sabia utilizá-la. Calculadoras ? Nem sequer sonhava com essas simples, que compramos por um real no camelô, apenas trabalhava, com sua intuição, na compra e venda de sacas de trigo. Observava as oscilações de preços e negociava, anovata suas operações em sua pequena caderneta feita com papel chinês. Alguma vezes ganhava, outras perdia. Exaltava seus ganhos para seus amigos da aldeia, todos o admiravam.

Certo dia Zawada perdeu tudo. E todos ficaram com muito medo de trabalhar com trigo.

Quinhentos anos depois, nosso estilo de negociação, não mudou de forma significativa. Somos investidores da Idade Média, utilizamos recursos da época anterior da invenção da régua de cálculo. E quanto ao mercado ? Avança, evolui, muta e tentamos correr atrás. Mas estamos na direção certa ? Podemos melhorar ?

Em um artigo entitulado “O dedo de Hall contra o crash: a ciência é a reposta” do Professor Marco Antonio Caetano do Ibmec-SP, encontramos algumas respostas:

“Dave, não percebo por que está fazendo isso comigo…estou muito empenhado nesta missão…está destruindo meu cérebro…não compreende ?…estou me tornando infantil…estou me tornando em nada…” Foi assim o fim de Hall-9000 quando foi desligado pelo comandante Dave Bowman no conto de Arthur C. Clarke imortalizado no filme “2001 - Uma Odisséia no Espaço”.

Desde o crash da tulipomania (1637), quando investidores holandeses compravam bulbos de tulipas no mercado de opções, estudos e metodologias são elaborados para entender o padrão de quedas acentuadas. Contadores tradicionais com seus livros caixas criaram metologias de avaliação de empresas observando o lucro nas vendas, retornos, balanços, entre outras medidas. Observadores de padrões deram suas contribuições criando médotos de avaliação do mercado usando gráficos: candelários japoneses (1750) utilizados para negociações de arroz, Ralph Elliot e as ondas de Elliot, e talvez, a mais famosa, a sequência e Fibonacci, adotada como forma de observação de suporte e resistência.

Assim, foram criadas metodologias baseadas nas “figuras” dos gráficos, tais como ombro-cabeça-ombro, triângulos, flâmulas, hiatos, etc. Da estatística foram emprestados a média móvel e osciladores de momento, força relativa, índice estocástico. E em praticamente todas as análises aparece a surrada regressão linear para tendências.

Do lado acadêmico, o primeiro a disciplinar estudos sobres mercado financeiro foi Louis Bachelier (1900), com sua “Théorie de La Spéculation”, que tinha como orientador ninguém menos que Henri Poincaré, matemático estudioso de sistemas dinâmicos. Ele formulou questões básicas de como os preços se movimentam. A partir dele, toda uma teoria foi criada na tentativa de entender o mercado e, claro, ganhar dinheiro. No entanto, foi depois do desastre de 1929 que se tormou conhecimento que mercado é sério e perigoso e as universidades começaram a investir em pesquisas que originaram as teorias de Markowitz, Sharpe, Black-Scholes e CAPM. Tudo parecia perfeito até 1987, quando novamente Wall Street foi sacudida por outro crash. O que falhou ?

[caption id="attachment_890" align="aligncenter" width="248" caption="Segunda-feira negra de 1987 !"][/caption]

O entendimento do mercado deve se adaptar ao progresso dos instrumentos que passam informação. No século 21 é inconcebível o uso de técnicas de quando a melhor calculadora era a régua de cálculo. Pessoas trabalham com idéias erradas sobre modelos matemáticos. Modelos lineares com uma quantidade absurda de variáveis não explicativas, discretos no tempo (admite-se que entre um tempo e outro nada acontece), com banco de dados com variáveis desnecessárias, quando se sabe que o mercado é não-linear, adaptativo, realimentado pelas informações e mais próximo do princípio da incerteza de Heisenberg do que da linearidade imaginada. Quando falham, leigos postulam que os modelos matemáticos não servem. É aí que entra Hall-9000.

Quando Wall Street voltou-se para o mundo acadêmico para entender crises, se deparou com técnicas anos à frente: a inteligência artificial, técnicas de filtragem inteligentes, wavelets, sistemas de identificação, simulação de sistemas inteligentes, regras lógicas não convencionais, redes neurais artificiais emprestadas da medicina, algoritmos genéticos emprestados da biologia imitando DNA com dados do mercado, filtro de partículas da física e otimização em sistemas dinâmicos.

Algoritmos nos levam a Marte, com ordens prévias, em naves que valem milhões, sem a possibilidade de interrupção por parte dos operadores (cada ordem demora 30 minutos até a nave) enquanto o mercado financeiro, como todo esse conhecimento disponível ainda opera sem o dedo de Hall. Na hora do crash nada melhor do que abandonar o modelo. O que está errado não é o modelo, e sim quem fez o modelo. O modelo repete o entendimento do pesquisador sobre um evento. Entendimento errado, modelo errado. Técnica errada, perda de bilhões. O Santo Graal do mercado é o modelo exato de compra e venda de um ativo. Se não é possível entender completamente o mercado, a ciência pel menos ajuda a diminuir a ignorância sobre ele.

O nome para tais técnicas não é nem quantitativa, nem fundamentalista e nada tem de exótica. É científica. Como dizia Carl Sagan, a ciência não é a melhor coisa do mundo, mas é o melhor que temos para entender o mundo. É possível perceber um crash antes que ele ocorra sem desligar um Hall. Solução: ciência.

O que mais você precisa saber:

  1. 9 Comentários sobre “Alucinações”


  2. Por Fábio em nov 11, 2008 | Resposta

    Botti, onde posso ler esse artigo?

    Obrigado.


  3. Por Fernando Botti em nov 11, 2008 | Resposta

    http://www.atrattore.com

    Olá Fábio,

    Estará aqui em breve, completo !

    Abraços,
    Botti


  4. Por Rodrigo em nov 13, 2008 | Resposta

    O que vc classifica como ‘técnicas de filtragem inteligentes’?

    Podes dar um exemplo de ‘regras lógicas não convencionais’ ?


  5. Por Fernando Botti em nov 14, 2008 | Resposta

    http://www.atrattore.com

    Olá Rodrigo,

    Excelentes questões.
    Farei um artigo para elas, aguarde.

    Abraços,
    Fernando Botti



  6. Por Julio Castro em nov 30, 2008 | Resposta

    Até o momento a ciência não conseguiu integrar todas as decisões de milhões de humanos tomadas a cada segundo. Quando conseguir, adeus livre arbítrio. Será no século em que o Hall vai ressuscitar.

    Parabéns pelo trabalho e
    Saudações


  7. Por Fernando Botti em dez 2, 2008 | Resposta

    http://www.atrattore.com

    Júlio,

    Obrigado pelo seu comentário. Creio que o livre-arbítrio será mantido, porém teremos uma previsão bem melhor de alguns acontecimentos.

    Abraços,
    Botti


  8. Por Julio Castro em dez 12, 2008 | Resposta

    Concordo mas, continuarão acontecendo eventos que eu chamo de “externos”, impossíveis de prever, que são os que determinam nossa curta vida.


  9. Por Fernando Botti em dez 12, 2008 | Resposta

    http://www.atrattore.com

    Olá Júlio.

    Excelente colocação. Sem dúvida ! Os extremos de uma suposta curva “gaussiana” no meio social é bem mais espessa do que supomos.

    Abraços,
    Botti

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  2. nov 17, 2008: Alucinações de um Investidor | insiderNews

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