Teoria do Caos e as Bolhas Especulativas

abril 26, 2008 | por Fernando Botti |

Teoria do Caos e as Bolhas EspeculativasOs defensores da irracionalidade dos mercados têm apontado as bolhas especulativas como uma prova definitiva de que os mercados não são eficientes. Há séculos os mercados têm apresentado períodos de altas exarcebadas e colapsos, e toda vez que isso ocorre, a culpa recai sobre a irracionalidade dos investidores. O problema não é tão simples assim.

Assim como outros eventos é possível ocorrer um bolha racional, isso soa como um contra-senso, mas pode acontecer. Talvez a maneira mais simples de pensar em um bolha racional seja considerar uma série de lançamentos de uma moeda, onde cada indica um dia de ganhos e coroa, um dia de perdas. É perfeitamente possível que uma seqüencia de ganhos pressione os preços das ações acima do seu justo valor (isso não está ocorrendo como a PETR4, por exemplo ?). Neste caso, uma eventual correção dos preços nada mais é do que uma reversão ao seu justo valor (isso é conhecido como reversão à média, utilizado em algumas estratégias de curto prazo).

Também é difícil diferenciar uma bolha de um equívoco. Os investidores, ao fazerem suas avaliações do futuro, podem perfeitamente cometer erros de precificação, ou porque possuem informações de má qualidade ou porque os resultados observados não confirmaram os valores esperados.

Apogeu ao Colapso – O Caos atuando.

Uma das questões mais fascinantes em economia é a que discute como e por que as bolhas se formam e o que precipita o seu colapso. A Ciência da Complexidade, interconectada com a Teoria do Caos, busca encontrar o que há de comum entre questões mais diversas. Mitchell Waldrop começa seu livro Complexidade: A ciência emergente no limiar da ordem e do caos com a seguinte questão:

  • (…) por que a Bolsa de Valores americana caiu mais de 500 pontos em um único dia, a famosa segunda-feira negra de outubro de 1987 ?

Isto seria uma bolha de fato ? Ou comportamentos comuns de sistemas dinâmicos adaptativos ? Embora cada bolha tenha suas próprias características, parece que todas as bolhas possuem quatro fases.

Fase 1: O Surgimento da Bolha

A maioria das bolhas tem a sua gênese em uma semente de verdade. Em outras palavras, no cerne da maioria das bolhas há uma história que faz sentido. Na Teoria do Caos isso é conhecido como Sensibilidade às Condições Iniciais ou simplesmente SCI, este fenômeno pode ser observado em toda parte, imagine por exemplo a fumaça de um cigarro que sobe até se dissipar por inteiro, essa turbulência depende de como começou. Vejamos, por exemplo, a bolha pontocom. Em seu centro havia o argumento (razoável) de que à medida que mais indivíduos e empresas tivessem acesso à rede, mais bens e serviços seriam transacionados online.

A bolha cresce à medida que o mercado confirma as ações irracionais ou mal pensadas, poderíamos citar as inúmeras novas empresas que abriram o seu capital com base em idéias estapafúrdias sobre comércio eletrônico e preços insustentáveis, e os investidores que lucraram pelo caminho. Nesta época a coqueluche nacional era a NET4 – Globo Cabo, creio que a única empresa de tecnologia, variações irracionais do preço deste ativo oscilavam em torno de 10% ao dia !

Fase 2: A Sustentação da Bolha

Uma vez formada uma bolha, ela precisa ser sustentada. Parte desta sustentação é dada por parasitas institucionais que ganham dinheiro fácil com a bolha e, por isso, têm grande interesse em sua preservação e expansão. Entre esses parasitas poderíamos citar: Bancos de investimentos, corretores e analistas, gerentes de carteira e a própria mídia.

No Caos podemos classificar isso como Efeito Feedback e Níveis Críticos. No Efeito Feedback, o sistema é alimentado com a sua própria saída, gerando nessa retroalimentação crescimentos espantosos. A Criticalidade ou Níveis Críticos são momentos a partir dos quais um sistema sai da posição de equilíbrio, sendo essa mudança causada por um pequeno incremento, como um castelo de cartas por exemplo.

Fase 3: O Estouro da Bolha

Todas as bolhas acabam por estourar, embora pareça não haver um único evento catalizador que cause a reavaliação. Em vez disse, há uma conjugação de fatores que parece conduzir à implosão dos preços. Ao primeiro sinal de dúvida do mercado, o pânico se instala no mesmo ritmo em que a realidade se impõe. Então, as estratégias de saída ordenada do mercado são abandonadas à medida que todos correm para as portas de saída ao mesmo tempo, e aí as mesmas forças que criaram a bolha causam o seu desaparecimento e a velocidade e a magnitude do colapso passam a refletir o processo de formação da bolha, os níveis críticos são atingidos e a última carta do castelo de cartas é posicionada, desabando toda estrutura.

Fase 4: O Rescaldo

No rastro do estouro de um bolha, inicialmente encontramos investidores que negam os fatos. Na verdade, uma das características mais espantosas dos períodos que sucedem os colapsos da bolsa é a dificuldade de se encontrar investidores que tenham perdido dinheiro com ela. Com o passar do tempo, as perdas decorrentes do estouro tornam-se grandes demais para serem ignoradas e tem início a caça aos bodes expiatórios. Finalmente os investidores afirmam ter aprendido a lição para sempre, “jamais investirei novamente em bolhas”. Ouvindo isto, nos perguntamos, então por que as bolhas continuam existindo ? O motivo não é tão simples: nenhuma bolha se parece com a outra, aqui os sistemas adaptativos dinâmicos atuam, reconstruindo o mercado com novos formatos.

  1. 6 Comentários sobre “Teoria do Caos e as Bolhas Especulativas”


  2. Por Elias Costa em mai 1, 2008 | Resposta

    Uma outra visão sobre esse fenômeno, interessante.


  3. Por Fernando Botti em mai 1, 2008 | Resposta

    http://www.atrattore.com

    Olá Elias,

    Obrigado pelo comentário.
    Um dos objetivos do blog é tentar transmitir
    essas idéias não convencionais sobre o mercado
    financeiro, espero que eu esteja conseguindo.

    Abraços,
    Botti



  4. Por julio em jun 28, 2008 | Resposta

    Fernando,

    Estou impressionado com o excelente nível do seu blog. O recente comportamento de algumas ações (ex:IPO OGXP3) tem me deixado perplexo. Quando o primeiro investidor se der conta, ocorrerá a busca da porta de emergência e todos se darão conta da “irracionalidade” das decisões de preço. Se PETR4, estava tendo um comportamento irracional, então o que dizer de uma empresa que não possui ativos e terá grande dificuldade de obtê-los no curto-prazo?


  5. Por Fernando Botti em jun 30, 2008 | Resposta

    http://www.atrattore.com

    Olá Julio,

    Muito obrigado pela sua visita e pelos seus comentários. Tento manter algum nível de excelência utilizando de muitas fontes, experiência e interação com outros investidores como você, que sempre tem a colaborar com o desenvolvimento do mercado no Brasil.

    Há realmente um comportamento irracional em médio e curto prazo em todo mercado, que o influenciará em longo prazo. Empresas menores sentem muito mais esses “ataques especulativos” e penam para crescer com alguma consistência.

    Abraços,
    Botti


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